Friday, March 31, 2006

Ai ai

Aperto a apragata pra correr no chão batido,
A poeira comendo os olhos e o calcanhar tão dolorido.
Durante o caminho vou treinando uma cantiga,
Não daquelas de embalar sono, das de ferver o espírito,
De provocar tremelique, comer jiló sorrindo,
Falar num fiozinho manso bem de perto do ouvido.
Vou sanfonando o som pra gente se entender
Durante a noite estrelada,
Aquela tão esperada pelos casais enternecidos.
E mesmo que caia um toró, daqueles mais bem mungidos,
Vou fazer acreditar que meus pés todos lascados
Trouxeram a disparada de um sol enfurecido
Pela saudade que aperta o gargalo
E faz afrouxar os olhos molhados
De solidão bem sofrida.
E da fenda do vestido florido vai escapulir
Um coração tão palpitado sem se conter em si
E eu vou segurar com carinho, tratar com cuidado
Colocar ao lado do meu peito tão malhado
Da lonjura que é maior que a distância de légua
Pois se eu contar cada lágrima derramada
Vai dar mais diâmetro do que a Terra carrega.

Ai, coração de catedrais imensas,
Eu só quero uma igrejinha pra casar com meu amor.

Sopra

Sopra o cabelo vermelhinho da menina que não pára quieta e vê se descobre as coisas lindas que se colocam em depósito embaixo do cabelo vermelhinho da menina que se enfeita e se agita e não cessa de mostrar os dentes, a boca repleta deles, esperando que a morte nunca chegue, a boca recheada da menina que transpira o coração vermelhinho e nunca está acordada, exceto enquanto pisca, e não larga de sonhar coisas de menina do cabelo vermelhinho. Sopra pra ver o que há!

Thursday, March 30, 2006

Cid Madureira

- Anota aí meu telefone, Cid!
Tirou do bolso lavado há 5 meses um papelote rabiscado onde só apertando bem caberia algum outro garrancho.
- Fala aí, bicho!
O vocativo era corrente, fosse pra mulher, homem, mãe. O “bicho” saía da boca esbarrando num palitinho mastigado do dia inteiro.
-998##5*3...
- Fala mais alto, bicho!
-99823523
Para Cid, homem que se prestava ao embaraço não prestava pra nada. Peito estufado e falatório empostado, fosse a cascata que fosse, era o distintivo de macho convicto. Isso também servia pra mulher, mãe, ...
-Que tu vai querer?
-Daquelas... er... que alargam as portas da consciência.
Cid revira os olhos sem acreditar no que ouve.
-ALARGAR O QUÊ??? Larga de ser mané, ô bichinha! Fala feito homem!
-Ô Cid.. quero pensar alto, elevado. Aquela coisa toda...
-Por que você não usa o banheiro como todo mundo faz?
-Tô com o dinheiro aqui. Vai me vender do bom ou não?
-Meu... tá ligado que não vendo pra afrescalhado, né? Mas pra tu vou fazer essa exceção.
-Me liga quando chegar então, Cid. E vê se esfria esse cabeção.

***

-Alô, baitolinha?
-Olha o respeito, Cid!
-Chegou, bicho! Cheirando a coisa novinha, cada folha no capricho.
-Onde a gente se encontra?
-Vou deixar o produto no beco da facada, onze horas. Não marca bobeira!
O Beco da facada era uma fenda imunda na zona da cidade. Só rato e bêbado conseguiam fazer dali um lugar trafegável. Dava pra lugar nenhum, fechado em suas paredes carcomidas de cuspe e chuva.
Cid deixou o pacote no beco e picou a mula, tão rápido quanto suas pernas suportaram. Um cliente bêbado da casa da Joana achou o pacote e levou consigo.

***

Uma hora depois...

- “Arriscar-se é perder o pé por algum tempo. Não se arriscar é perder a vida!!!”, gritava a cafetina ensandecida enquanto mulheres voavam das janelas, loucas, gritando que “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente!!!”.
Os clientes subiram nas mesas e, num coro formado de improviso, cantaram alto “O prazer pode decepcionar. As possibilidades nunca”! O alvoroço era tão grande que o homem deduziu, antes mesmo de chegar no beco, que o produto tinha sido extraviado.
-Merda, vou trucidar o Cid!
De longe avistou o pacote, iluminado pelo vermelhão da casa, sendo provado por um garotinho iniciante.
-Tira isso das mãos dele!!!
-Meu bem, já era, falou dona Joana.
-Essa droga é minha!!!
-Todo mundo provou do teu Kierkegaard hoje, já era bem. O Cid costumava fazer essas entregas com mais eficácia. Esses tempos estão complicados. Agora vai embora! Toma esse livro imundo e não aparece mais por aqui!

Wednesday, March 29, 2006

Ê Bastiana!

No lugar do peito um crachá, arrumei os cabelos num coque insosso e fui trabalhar. A calça preta de microfibra roçou na roleta - do ônibus, da firma, no restaurante depois da sobremesa. Nos encontramos na xerox pra bater um papinho – você me falando do clima e eu de comezinhos. Café frio, testa quente, o sebo correndo na minha falta de banho. É hora de ir pra casa e alimentar o rebanho.

Ê trabalheira doida! Agora já dá pra encher o peito do crachá arrancado com a fumaça de um Derby, dar um beijo nos meninos e afundar a cabeça no travesseiro modorrento. Amanhã, se a toca de grampos funcionar, eu vou de cabelo solto!

***

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem!

Tuesday, March 28, 2006

E qualquer desatenção, faça não

Onde já se viu piaba peitar tubarão? Onde já se viu, maior estapafúrdio ainda, piaba engolfar tubarão? Tubarão fuçando conta de piaba, cochichando sobre tostões a mais pra outro tubarão graúdo ouvir. O espetáculo de David e Golias marítimo seria lindo não fosse a sombra que se coloca atrás da piaba, grande e fedida. Nesse angu aí tem peixe, e podre!

***

HOJE TERMINA MEU SEMESTRE NA UNB (2005.2)!!! E que venham os outros cinco restantes!!!


***

"Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas."

"Tudo que não invento é falso."

Manoel de Barros

Monday, March 27, 2006

E lá vamos nós!

Vou escrevendo aqui só para dar o pontapé primeiro.
Espero mudar o layout em breve, e abastecer o espaço com algumas coisas minhas e outras afanadas também (não posso assegurar que a luz seja perene).
Beijos a quem leu.
Um beijo, portanto, para uma posteridade duvidosa. hohohoho