Wednesday, January 31, 2007

Todas as músicas do mundo

Van Gogh cortou suas orelhas e Charlie queria implantar algumas muitas para ouvir todo o som que estava no ar. Era impossível. As noites não eram o bastante para a música que corria pela cidade, e a manhã, as boas famílias já diziam, não é hora de ouvir jazz. Sobravam solos e improvisos para poucos ouvidos e horas de lua contadas.

Alguns malucos ainda escapavam pelo dia, batendo forte no piano enrouquecido e desbotado pelos copos de scotch encostados em sua madeira escura. Geralmente era um negro comandando o som, mas ninguém se importava se um branco, sardento e afilado o quanto fosse, tocasse. Mas tinha que ser bom, pois só os bons se reconhecem e se agüentam até o sol despontar.

Charlie era nem preto nem branco e tocava feito o diabo se redimindo, feito um fumante que dá o primeiro trago da manhã e recorda, quando a fumaça invade o pulmão, o porquê do delicioso vício. Era disputado em toda jam session porque ninguém o segurava. Tocava sem cabresto, desenfreado em suas rajadas gordas de notas. Era dos bons, o melhor do trompete.

Uma vez o cara começou o que os mais teóricos chamam de responsorial. O piano falava, ele respondia, o piano reclamava, ele acudia, e depois maltratou. Terminou a peleja e deu início ao maior improviso já ouvido na História. As pessoas saíam do bar, voltavam, desistiam e iam para suas casas, voltavam cinco horas depois e lá estava ele, travado em seu instrumento como se não houvesse mais nada no mundo. Só o pianista e o dono do bar presenciaram todas as 42 horas de delírio.

De Charlie só restou a força para segurar o copo e gritar, ao sol do meio dia: Já que não posso ouvir tudo o que tá rolando, eu mesmo o toco!

Desde então, ninguém, no mundo, conseguiu fazer nada inédito. A era do improviso foi esgotada.

Tuesday, January 16, 2007

Coisas pelas quais vale a pena viver

Miles Davis
Beijo de língua
Bernardo Bertolucci
Ladeiras de Olinda
Literatura mineira
Mafalda de Quino
Pé na estrada
Pimenta de cheiro
Cerveja escura
Cinema da esquina
Conversa de madrugada
Sexta e sábado
Segunda feriado
George Harrison
Amigo de verdade
Imprensa carioca
Mergulho no mar
Cheiro de café
Queijo e vinho
Forró arrochado
Água tônica
Sol nascendo
Sonata ao Luar
Ouro Preto
Arnaldo Antunes

Tuesday, January 09, 2007

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?

Queria poder estar com dor-de-cotovelo para poder ouvir Lupicínio Rodrigues com propriedade e sem sobriedade.
Queria nada!