Todas as músicas do mundo
Van Gogh cortou suas orelhas e Charlie queria implantar algumas muitas para ouvir todo o som que estava no ar. Era impossível. As noites não eram o bastante para a música que corria pela cidade, e a manhã, as boas famílias já diziam, não é hora de ouvir jazz. Sobravam solos e improvisos para poucos ouvidos e horas de lua contadas.
Alguns malucos ainda escapavam pelo dia, batendo forte no piano enrouquecido e desbotado pelos copos de scotch encostados em sua madeira escura. Geralmente era um negro comandando o som, mas ninguém se importava se um branco, sardento e afilado o quanto fosse, tocasse. Mas tinha que ser bom, pois só os bons se reconhecem e se agüentam até o sol despontar.
Charlie era nem preto nem branco e tocava feito o diabo se redimindo, feito um fumante que dá o primeiro trago da manhã e recorda, quando a fumaça invade o pulmão, o porquê do delicioso vício. Era disputado em toda jam session porque ninguém o segurava. Tocava sem cabresto, desenfreado em suas rajadas gordas de notas. Era dos bons, o melhor do trompete.
Uma vez o cara começou o que os mais teóricos chamam de responsorial. O piano falava, ele respondia, o piano reclamava, ele acudia, e depois maltratou. Terminou a peleja e deu início ao maior improviso já ouvido na História. As pessoas saíam do bar, voltavam, desistiam e iam para suas casas, voltavam cinco horas depois e lá estava ele, travado em seu instrumento como se não houvesse mais nada no mundo. Só o pianista e o dono do bar presenciaram todas as 42 horas de delírio.
De Charlie só restou a força para segurar o copo e gritar, ao sol do meio dia: Já que não posso ouvir tudo o que tá rolando, eu mesmo o toco!
Desde então, ninguém, no mundo, conseguiu fazer nada inédito. A era do improviso foi esgotada.
Alguns malucos ainda escapavam pelo dia, batendo forte no piano enrouquecido e desbotado pelos copos de scotch encostados em sua madeira escura. Geralmente era um negro comandando o som, mas ninguém se importava se um branco, sardento e afilado o quanto fosse, tocasse. Mas tinha que ser bom, pois só os bons se reconhecem e se agüentam até o sol despontar.
Charlie era nem preto nem branco e tocava feito o diabo se redimindo, feito um fumante que dá o primeiro trago da manhã e recorda, quando a fumaça invade o pulmão, o porquê do delicioso vício. Era disputado em toda jam session porque ninguém o segurava. Tocava sem cabresto, desenfreado em suas rajadas gordas de notas. Era dos bons, o melhor do trompete.
Uma vez o cara começou o que os mais teóricos chamam de responsorial. O piano falava, ele respondia, o piano reclamava, ele acudia, e depois maltratou. Terminou a peleja e deu início ao maior improviso já ouvido na História. As pessoas saíam do bar, voltavam, desistiam e iam para suas casas, voltavam cinco horas depois e lá estava ele, travado em seu instrumento como se não houvesse mais nada no mundo. Só o pianista e o dono do bar presenciaram todas as 42 horas de delírio.
De Charlie só restou a força para segurar o copo e gritar, ao sol do meio dia: Já que não posso ouvir tudo o que tá rolando, eu mesmo o toco!
Desde então, ninguém, no mundo, conseguiu fazer nada inédito. A era do improviso foi esgotada.
